Introdução
Durante muito tempo foi vendida a idéia de que o problema dos acidentes e doenças relacionadas ao trabalho era um tema só para certos especialistas: engenheiros de segurança, médicos do trabalho, a gerência das empresas e outros técnicos especializados, seriam os únicos “detentores” do conhecimento para analisarem os riscos nos locais de trabalho e proporem soluções. Nessa visão, os trabalhadores seriam meros e passivos coadjuvantes, ora fornecendo informações aos especialistas, ora indo aos exames e respondendo perguntas aos médicos, ou mesmo sendo acusados como responsáveis pelos acidentes, através do conceito de ato inseguro, que é perverso e cientificamente errado.
Essa visão também privilegiava a compensação financeira ou monetização dos riscos, através da concessão dos adicionais de insalubridade e periculosidade, e possuía uma atuação preventiva extremamente limitada. Essa visão atrasada de segurança e saúde ocupacional acabava trabalhando somente no final da linha, ou seja, após a ocorrência de eventos como acidentes e doenças, e no controle dos próprios trabalhadores. Para os técnicos dessa visão, a prevenção se restringia às normas de segurança e aos equipamentos de proteção individual, nem sempre com fornecimento e treinamento adequados.
Deixava-se de lado as causas mais profundas que geram os acidentes e doenças nos locais de trabalho, como os projetos de tecnologias, a organização do trabalho e as características da própria sociedade, como a legislação e a atuação dos trabalhadores e as instituições.
Obviamente, esta visão não é verdadeira e nem interessa aos trabalhadores, embora ainda hoje esteja presente em muitas empresas e instituições no Brasil, que tentam inculcar esta ideologia nos próprios trabalhadores. A análise dos riscos nos locais de trabalho deve necessariamente incorporar a vivência, o conhecimento e a participação dos trabalhadores, já que eles realizam o trabalho cotidiano e sofrem seus efeitos e, portanto, possuem um papel fundamental na identificação, eliminação e controle dos riscos. Além disso, os processos produtivos afetam a vida da população em geral e o meio ambiente, através da poluição crônica ou dos acidentes ambientais, como os que ocorrem em fábricas químicas e nucleares, sendo um tema a ser debatido pelo conjunto da sociedade.
Por isso, os riscos nos locais de trabalho não são um problema somente técnico: é também de natureza ética e política, e tem mais a ver com as relações de poder na sociedade e nas empresas do que com o mundo restrito da ciência e da técnica. Os riscos decorrentes de processos produtivos e tecnologias que ignoram ou desprezam as necessidades de seres humanos e do meio ambiente não são enfrentados só tecnicamente por especialistas e cientistas, mas pela atuação organizada dos trabalhadores e dos cidadãos em geral na luta pela defesa da vida e da democracia.
Nas últimas décadas, principalmente nos países da Europa e na América do Norte, tem havido uma mudança substancial no enfoque dos profissionais que trabalham com os riscos nos locais de trabalho. Em vez de sistemas compensatórios e de fim de linha, busca-se enfatizar mais o aspecto preventivo, ou seja, atuar no controle e eliminação dos riscos na fonte, e não após a ocorrência de acidentes e doenças. Também a organização do trabalho e as práticas gerenciais passaram a ser reconhecidas como importante foco de análise, seja como causadoras de acidentes, doenças e sofrimento, ou como integrantes fundamentais das políticas de segurança e saúde nas empresas.
Histórico da Saúde e Segurança no Trabalho, no Brasil e no Mundo
O êxito de qualquer atividade empresarial é diretamente proporcional ao fato de se manter a sua peça fundamental - o trabalhador - em condições ótimas de saúde. As atividades laborativas nasceram com o homem. Pela sua capacidade de raciocínio e pelo seu instinto gregário, o homem conseguiu, através da história, criar uma tecnologia que possibilitou sua existência no planeta.
Uma revisão dos documentos históricos relacionados à Segurança do Trabalho permitirá observar muitas referências a riscos do tipo profissional mesclados aos propósitos do homem de lograr a sua subsistência. Na antigüidade a quase totalidade dos trabalhos eram desenvolvidos manualmente - uma prática que nós encontramos em muitos trabalhos dos nossos dias.
- Plínio, O Velho, que viveu antes do advento da era Cristã, descreveu diversas moléstias do pulmão entre mineiros e envenenamento advindo do manuseio de compostos de enxofre e zinco. Galeno, que viveu no século II, fez várias referências a moléstias profissionais entre trabalhadores das ilhas do mediterrâneo.
- Agrícola e Paracelso investigaram doenças ocupacionais nos séculos XV e XVI.
- Georgius Agrícola, em 1556, publicava o livro "De Re Metallica", onde foram estudados diversos problemas relacionados à extração de minerais argentíferos e auríferos, e à fundição da prata e do ouro. Esta obra discute os acidentes do trabalho e as doenças mais comuns entre os mineiros, dando destaque à chamada "asma dos mineiros". A descrição dos sintomas e a rápida evolução da doença parece indicar sem sombra de dúvida, tratarem de silicose.
- Em 1697 surge a primeira monografia sobre as relações entre trabalho e doença de autoria de Paracelso: "Von Der Birgsucht Und Anderen Heiten". São numerosas as citações relacionando métodos de trabalho e substâncias manuseadas com doenças.Destaca-se que em relação à intoxicação pelo mercúrio, os principais sintomas dessa doença profissional foram por ele assinalados.
- Em 1700 era publicado na Itália, um livro que iria ter notável repercussão em todo o mundo. Tratava-se da obra "De Morbis Artificum Diatriba" de autoria do médico Bernardino Ramazzini que, por esse motivo é cognominado o "Pai da Medicina do Trabalho". Nessa importante obra, verdadeiro monumento da saúde ocupacional, são descritas cerca de 100 profissões diversas e os riscos específicos de cada uma. Um fato importante é que muitas dessas descrições são baseadas nas próprias observações clínicas do autor o qual nunca esquecia de perguntar ao seu paciente: "Qual a sua ocupação?".
Devido a escassez de mão-de-obra qualificada para a produção artesanal, o gênio inventivo do ser humano encontrou na mecanização a solução do problema. Partindo da atividade predatória, evoluiu para a agricultura e pastoreio, alcançou a fase do artesanato e atingiu a era industrial.
Entre 1760 e 1830, ocorreram na Inglaterra a Revolução Industrial, marco inicial da moderna industrialização que teve a sua origem com o aparecimento da primeira máquina de fiar.
Até o advento das primeiras máquinas de fiação e tecelagem, o artesão fora dono dos seus meios de produção. O custo elevado das máquinas não mais permitiu ao próprio artífice possuí-las. Desta maneira os capitalistas, antevendo as possibilidades econômicas dos altos níveis de produção, decidiram adquiri-las e empregar pessoas para faze-las funcionar. Surgiram assim, as primeiras fábricas de tecidos e, com elas, o Capital e o Trabalho.
Somente com a revolução industrial, é que o aldeão, descendente do troglodita, começou a agrupar-se nas cidades. Deixou o risco de ser apanhado pelas garras de uma fera, para aceitar o risco de ser apanhado pelas garras de uma máquina.
A introdução da máquina a vapor, sem sombra de dúvida, mudou integralmente o quadro industrial. A indústria que não mais dependia de cursos d'água, veio para as grandes cidades, onde era abundante a mão-de-obra.
Condições totalmente inóspitas de calor, ventilação e umidade eram encontradas, pois as "modernas" fábricas nada mais eram que galpões improvisados. As máquinas primitivas ofereciam toda a sorte de riscos, a as conseqüências tornaram-se tão críticas que começou a haver clamores, inclusive de órgãos governamentais, exigindo um mínimo de condições humanas para o trabalho.
A improvisação das fábricas e a mão de obra constituída não só de homens, mas também de mulheres e crianças, sem quaisquer restrições quanto ao estado de saúde, desenvolvimento físico passaram a ser uma constante. Nos últimos momentos do século XVIII, o parque industrial da Inglaterra passou por uma série de transformações as quais, se de um lado proporcionaram melhoria salarial dos trabalhadores, de outro lado, causaram problemas ocupacionais bastante sérios.
O trabalho em máquinas sem proteção; o trabalho executado em ambientes fechados onde a ventilação era precária e o ruído atingia limites altíssimos; a inexistência de limites de horas de trabalho; trouxeram como conseqüência elevados índices de acidentes e de moléstias profissionais.
Na Inglaterra, França e Alemanha a Revolução Industrial causou um verdadeiro massacre a inocentes e os que sobreviveram foram tirados da cama e arrastados para um mundo de calor, gases, poeiras e outras condições adversas nas fábricas e minas. Esses fatos logo se colocaram em evidência pelos altos índices de mortalidade entre os trabalhadores e especialmente entre as crianças.
A sofisticação das máquinas, objetivando um produto final mais perfeito e em maior quantidade, ocasionou o crescimento das taxas de acidentes e, também, da gravidade desses acidentes.
Nessa época, a causa prevencionista ganhou um grande adepto: Charles Dickens. Esse notável romancista inglês, através de críticas violentas, procurava a todo custo condenar o tratamento impróprio que as crianças recebiam nas indústrias britânicas.
Pouco a pouco, a legislação foi se modificando até chegar à teoria do risco social: o acidente do trabalho é um risco inerente à atividade profissional exercida em benefício de toda a comunidade, devendo esta, por conseguinte, amparar a vítima do acidente.
No Brasil, podemos fixar por volta de 1930 a nossa revolução industrial e, embora tivéssemos já a experiência de outros países, em menor escala, é bem verdade, atravessamos os mesmos percalços, o que fez com que se falasse, em 1970, que o Brasil era o campeão mundial de acidentes do trabalho.
Embora o assunto fosse pintado com cores muito sombrias, o quadro estatístico abaixo nos dá idéia de que era, de fato, lamentável a situação que enfrentávamos. Ao mesmo tempo, pudemos vislumbrar um futuro mais promissor, que só foi possível pelo esforço conjunto de toda nação: trabalhadores, empresários, técnicos e governo.
Número de acidentes do trabalho ocorridos no período de 1970 a 2005
ano |
massa segurada |
típicos |
de trajeto |
doenças |
total |
total de óbitos |
1970 |
7.284.022 |
1.199.672 |
14.502 |
5937 |
1.220111 |
2232 |
1971 |
7.553.472 |
1.308.335 |
18.138 |
4050 |
1330.523 |
2587 |
1972 |
8.148.987 |
1.479.318 |
23.389 |
2016 |
1.504.723 |
2854 |
1973 |
10.956.956 |
1.602.517 |
28.395 |
1784 |
1.632.696 |
3173 |
1974 |
11.537.024 |
1.756.649 |
38.273 |
1839 |
1.796.761 |
3833 |
1975 |
12.996.796 |
1.869.689 |
44.307 |
2191 |
1.916.187 |
4001 |
1976 |
14.945.489 |
1.692.833 |
48.394 |
2598 |
1.743.825 |
3900 |
1977 |
16.589.605 |
1.562.957 |
48.780 |
3013 |
1.614.750 |
4445 |
1978 |
16.638.799 |
1.497.934 |
48.511 |
5016 |
1.551.461 |
4342 |
1979 |
17.637.127 |
1.388.525 |
52.279 |
3823 |
1.444.627 |
4673 |
1980 |
18.686.355 |
1.404.531 |
55.967 |
3713 |
1.464.211 |
4824 |
1981 |
19.188.536 |
1.215.539 |
51.722 |
3204 |
1.270.465 |
4808 |
1982 |
19.476.362 |
1.117.832 |
57.874 |
2766 |
1.178.472 |
4496 |
1983 |
19.671.128 |
943.110 |
56.989 |
3016 |
1.003.115 |
4214 |
1984 |
19.673.915 |
901.238 |
57.054 |
3233 |
961.525 |
4508 |
1985 |
21.151.994 |
1.010.340 |
63.515 |
4006 |
1.077.861 |
4384 |
1986 |
22.163.827 |
1.129.152 |
72.693 |
6014 |
1.207.859 |
4578 |
1987 |
22.617.787 |
1.065.912 |
64.830 |
6382 |
1.137.124 |
5738 |
1988 |
23.661.579 |
927.424 |
60.284 |
5029 |
992.737 |
4616 |
1989 |
24.486.553 |
825.081 |
58.424 |
4838 |
888.343 |
4554 |
1990 |
23.198.656 |
632.012 |
56.343 |
5217 |
693.572 |
5355 |
1991 |
23.004.264 |
587.560 |
46.679 |
6281 |
640.520 |
4464 |
1992 |
22.272.843 |
490.916 |
33.299 |
8299 |
532.514 |
3634 |
1993 |
23.165.027 |
374.167 |
22.709 |
15417 |
412.293 |
3110 |
1994 |
23.667.241 |
350.210 |
22.824 |
15270 |
388.304 |
3129 |
1995 |
23.755.736 |
374.700 |
28.791 |
20646 |
424.137 |
3967 |
1996 |
23.830.312 |
325.870 |
34.696 |
34.889 |
395.455 |
4488 |
1997 |
24.104.428 |
347.482 |
37.213 |
36.648 |
421.343 |
3469 |
1998 |
24.491.635 |
347.738 |
36.114 |
30.489 |
414.341 |
3793 |
1999 |
24.993.265 |
326.404 |
37.513 |
23.903 |
387.820 |
3896 |
2000 |
26.228.629 |
304.963 |
39.300 |
19.605 |
363.868 |
3094 |
2001 |
27.189.614 |
282.965 |
38.799 |
18.487 |
340.251 |
2753 |
2002 |
28.683.913 |
323.879 |
46.881 |
22.311 |
393.071 |
2968 |
2003 |
29.544.927 |
325.577 |
49.642 |
23.858 |
399.077 |
2674 |
2004 |
31.407.576 |
375.171 |
60.335 |
30.194 |
465.700 |
2839 |
2005 |
33.238.617 |
393.921 |
67.456 |
30.334 |
491.711 |
2708 |
FONTE: MPAS
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